O porre que faz mal. Crescimento do consumo de bebidas alcoólicas é maior entre as mulheres jovens, diz pesquisa
Os brasileiros têm exagerado na dose de bebida alcoólica, sobretudo em ocasiões específicas como baladas e afins — hábito denominado por especialistas de binge drinking, termo semelhante ao “porre” mas que denota maior prejuízo à saúde. Segundo pesquisa da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), encomendada pelo Ministério da Saúde, o percentual de pessoas que bebem de forma episódica e abusiva — algo que corresponde a mais de quatro doses de álcool para mulheres e mais de cinco para homens em mesma ocasião, festa ou evento — saltou de 16,1% em 2006 para 19% em 2008. Os homens seguem firmes na liderança do volume de “garrafas abertas” — em média, um em cada três bebe além da conta —, mas as mulheres não ficam muito atrás. Em 2008, 10,5% da ala feminina disseram ter exagerado no consumo alcoólico, índice que em 2006 era de 8,1%. Entre os jovens, o exagero é maior: a pesquisa aponta que 30% dos homens e 10% das mulheres entre 18 e 44 anos bebem de forma abusiva.
“A pressão sóciocultural, em termos de aceitação, é muito maior hoje que há alguns anos, principalmente entre os universitários”, pondera o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas Elson da Silva Lima. Por conta disso, mulheres independentes e solteiras antes avessas à bebedeira, hoje não relutam tanto quanto antes ao pedir mais um drinque ao garçom naquele happy hour da empresa.
Na opinião da comerciária Fernanda Alves Maia, que já viveu sua fase de sair e tomar cerveja diariamente, os hábitos mudam quando os filhos chegam. “Hoje, bebo de vez em quando e com muita moderação porque sou mãe e tenho novas responsabilidades. Mas essa meninada que lota os barzinhos às vezes bebe mesmo descontroladamente”, conta ela enquanto degusta o segundo e último chope da noite num jantar entre amigos.
A coordenadora de eventos Thais Vicentin também não costuma pedir a terceira tulipa em eventos sociais e que só “abusa um pouquinho” quando está prestes a cair na balada — por conta dos preços dos drinques, prefere consumir energético e água na boate. “A gente faz o famoso esquenta na casa de um amigo antes de sair”, diz ela.
TOLERÂNCIA
O psiquiatra Elson da Silva Lima explica que as mulheres e os povos asiáticos são, naturalmente mais intolerantes ao álcool por conta da menor produção, pelo fígado, de duas enzimas que agem sequencialmente no metabolismo: a álcool desidrogenase (ADH), que converte o álcool em acetaldeído, e a aldeído desidrogenase (ALDH), que o converte em acetato, metabolizado pelos tecidos externos ao órgão.
“Os dados do relatório da Vigitel soam preocupantes porque revelam que, ao contrário dos europeus, que mantém um padrão moderado de consumo, os brasileiros praticam o beber de alto risco. Ou seja, toda vez que saem, bebem bastante e praticam o chamado binge drinking. Assim, cultivam também uma série de outros problemas, como acidentes de todo tipo, exposição ao sexo não seguro e mesmo a dependência alcoólica”, alerta o psiquiatra.
É claro que eles estão a fim
Os primeiros versos da letra de Mais Uma Dose, de Cazuza, se encaixam bem no perfil do administrador de empresas Júlio Silva, de 21 anos, sobretudo quando rola aquele churrasquinho entre amigos, no final de semana. “Eu e cinco amigos chegamos a consumir 40 litros de chope num final de semana, um exagero a ser repensado. Mas confesso que gosto de sair para relaxar depois do trabalho, algo que rola umas três vezes por semana. Tomo cerca de quatro chopes nesses casos”, conta ele.
E quem dirige depois do happy hour, em tempos de lei seca? No caso de Silva e seus amigos, o esquema do “careta da rodada” (amigo que fica à base de guaraná enquanto a galera toma suas doses) ainda não pegou. “Nunca me aconteceu nada ao volante porque espero o efeito do álcool passar e redobro o cuidado no volante. E se não estou em condições, chamo um táxi”, diz o empresário Bruno Murdian. Já o estudante Pablo Bardari diz que seu fígado aderiu à onda “total flex” há tempos. “Vou de vodca, cerveja, chope e sempre volto de carona para casa”, descontrai ele.
De acordo com o relatório da Vigitel, depois da adoção da Lei Seca (Lei 11.705/2008, que alterou o Código de Trânsito Brasileiro), o número de pessoas que costumava beber abusivamente e dirigir caiu de 2% para 1,5%.
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