O mandamento da lei de Deus, o quinto, é peremptório. Sob a simplicidade do seu enunciado: “Não matar” (Êxodo 20,13), muitas facetas se apresentam e questionam nossas consciências.
O sentido do preceito é a proteção à vida, abrangendo, inclusive, qualquer omissão assassina. Suprimir a existência do seu semelhante e a própria, ou colocá-las imprudentemente em risco sem grave motivo, determina, segundo os livros santos, a ira de Deus. Cada ser humano, ao vir à luz, recebe esse incomparável dom divino, que deve ser resguardado, defendido e somente o Senhor dele pode dispor.
Infringe essa ordem tanto o motorista que atropela e fere o pedestre com seu veículo, como este que, levianamente, arrisca a sua segurança. Ambos desobedecem ao decálogo. O Concílio Vaticano II (“Gaudium et Spes”, no30) nos diz: “Outras (pessoas) desprezam certas normas da vida social, como, por exemplo, as estabelecidas para defender a saúde ou para regularizar o trânsito de veículos, sem repararem que, com esse seu descuido, põem em perigo a vida própria e a alheia.” Portanto, é necessário observar as regras de trânsito. Algo obrigatório e não facultativo.
Em consequência, a fé cristã impõe maior solicitude pela nossa vida e a do nosso irmão, conferindo uma dimensão religiosa à observância das leis do tráfego, feitas para assegurar a integridade física dos indivíduos.
Todas elas se destinam a proteger pedestres e viajantes de acidentes que violam o Quinto Mandamento.
Muitos são os argumentos em favor da prudência ao dirigir veículos e da convivência com o trânsito. E são diversas as explicações científicas para a multiplicidade e aumento de acidentes.
Assim, as bebidas alcoólicas afetam os reflexos do motorista. Entretanto, todas as advertências necessitam, para muitos, de um alicerce transcendental, a fim de que exerçam com eficácia o seu papel controlador. Daí o significado do fator religioso, no esforço por humanizar o tráfego, reduzir os riscos e modificar a terrível situação nessa matéria, que tanto nos envergonha.
Cabe à Igreja importante papel. Não apenas quando apoia as iniciativas que visem a humanizar o tráfego. Ela traz um elemento de ordem transcendental que fortalece os esforços despendidos para evitar os desastres rodoviários com suas dolorosas consequências.
Além disso, ao reclamar a necessidade de uma atenta e escrupulosa observância às leis do trânsito e ao insistir no valor de dirigirem prudente e responsavelmente, demonstra o mal que há por parte de comportamentos exibicionistas ou agressivos.
Eles ferem o Quinto Mandamento da Lei de Deus, põem em risco a vida humana, atingem sua sacralidade, além de impedir a formação de uma consciência que oriente adequadamente todos os aspectos do trânsito.
Merece uma séria reflexão, por seu conteúdo e atualidade, o que dizia o Papa Paulo VI (discurso aos participantes do “Diálogo para a moralização do uso da estrada”, em 2 de outubro de 1965): “A moralização do uso das estradas é um dos mais preocupantes problemas práticos da vida de hoje (...). É preciso também rezar para que o homem não seja vítima de si mesmo, do progresso e dos seus formidáveis instrumentos.”
DOM EUGENIO SALES

D. EUGENIO SALES é cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio.
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