Acidentes com ônibus: homens-bombas ao volante
Milton C. Costa
Dia desses por pouco, muito pouco, uma tragédia de grandes proporções deixou de ocorrer no violento trânsito do Rio. Não se pode deixar passar em branco a recente morte do motorista de ônibus Denivaldo de Melo na tarde do dia 14 de janeiro em Botafogo, Zona Sul do Rio. Ele sofreu um infarto enquanto conduzia um coletivo da Linha 433 ( Leblon- Vila Isabel). O veículo desgovernado subiu a calçada e atropelou quatro pessoas num ponto de ônibus, duas pessoas ficaram feridas em estado grave. Este caso precisa, portanto, ser objeto de muita reflexão.
Estamos, sim, à mercê de inúmeros homens-bombas, na condução do transporte coletivo municipal e intermunicipal. Eles transportam diariamente milhares de seres humanos, estão prontos a explodir e alguns sequer sabem que são hipertensos e/ou cardíacos. As pesquisas indicam, por exemplo, que, no Brasil, mais de 15% de seus habitantes sofrem de hipertensão, fonte do infarto e do Acidente Vascular Cerebral (AVC). Neste percentual, obviamente, estão incluídos motoristas de ônibus do Rio, alguns com problemas de obesidade - há também casos de ingestão excessiva de álcool nos períodos de folga - dirigindo um veículo sob uma temperatura ambiente acima de 40 graus, onde a sensação térmica é de cerca de 50 graus.
Ressalte-se ainda que boa parte dos motoristas de ônibus também desempenham a função de trocador. Dirigem e cobram passagens, ficando muitas vezes desatentos ao trânsito. Isso é desumano e é óbvio que se torna fonte de estresse, o que acaba influenciando no ato de dirigir. O ar refrigerado deveria, por exemplo, ser equipamento obrigatório nos ônibus numa cidade de clima quente como o Rio.
Tais tragédias estão aí prestes a se consumar. É preciso urgentemente que as empresas de ônibus intensifiquem os testes de avaliação física e psicológica de seus motoristas. Caso contrário, todos nós, usuários das vias públicas, estaremos em risco permanente. Na mesma quinta-feira em que ocorreu o referido acidente, no Alto da Boa Vista um motorista de ônibus - há depoimentos de que dirigia em alta velocidade e dormiu ao volante - ao perder o controle do veículo, bateu contra um muro. Um total de 48 passageiros ficaram feridos, dos quais 31 foram levados para hospitais. Boa parte são trabalhadores que certamente permanecerão por algum tempo fora de suas atividades profissionais.
Não só os passageiros estão em perigo, mas qualquer um de nós, pedestres ou condutores de veículos particulares, ante o risco do acidente. A condição física e psicológica de tais profissionais têm que ser avaliadas a todo instante. Eles são responsáveis por conduzir com segurança seres humanos. Tal ação deve ser prioritária e urgente, urgentíssima, por parte das empresas de transporte coletivo e meta permanente. A vida humana é o maior bem jurídico tutelado e ela tem que ser alvo do investimento prioritário. Não basta só qualificar os motoristas de ônibus. É preciso também monitorá-los no dia a dia no desempenho de suas missões em via pública. Tais tragédias podem ser evitadas, antes tarde do que nunca.
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