Dor de parto, por Beto Grill

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Após um período afastado, voltei aos plantões de urgência. A realidade é a mesma. Sistematicamente, presenciando a chegada de acidentados, na maioria jovens, fruto de imprudência.

Reforço o entendimento de que o ir e vir das pessoas deve ser disciplinado a partir de conceitos definidos frente a uma nova realidade, produto do crescimento da população, do número maior de condutores "habilitados", do incremento da frota de veículos em contrapartida a uma malha viária que não progride com o mesmo dinamismo. Uma nova engenharia de tráfego que estabeleça o espaço e a segurança necessários para as pessoas se deslocarem.

No pronto-socorro – testemunhando vidas truncadas, perdidas, famílias destroçadas, chorando perdas irreparáveis –, salta aos olhos um fator que transcende: a falta de educação para o trânsito.

A pressa, a afoiteza, a necessidade de chegar antes, de vencer uma disputa interior, de ganhar a corrida contra as próprias frustrações e incapacidades. O uso de seus veículos ou do próprio corpo como armas, como símbolo de virilidade e de afirmação.

Dirigir com sono e estafa não pode dar bom resultado. Abusar do álcool e da velocidade é um convite ao acidente. Avançar o sinal vermelho, atravessar a preferencial e ultrapassar em faixa amarela provocam riscos significativos.

E o outro lado da moeda. Os que querem exercer os seus "direitos" mesmo sob risco iminente. O pedestre que, por ter prioridade ao transpor a faixa de segurança, o faz com descaso, sem conferir se, eventualmente, não está vindo em seu encontro um veículo que invade a faixa. O motoqueiro cometendo imprudências sistemáticas em ziguezague entre os carros e ultrapassagens de risco. Esquecem que as consequências de um erro próprio ou de outrem serão diretas sobre sua integridade física, enquanto os ocupantes de um automóvel ou um caminhão terão o impacto do choque absorvidos em muito pela estrutura do veículo. Os ciclistas, cada vez mais numerosos, trafegando na contramão, sobre as calçadas, sempre expostos e expondo outros transeuntes a ameaças. Crianças, ainda sem o discernimento adequado do perigo, conduzindo bicicletas à revelia dos pais. É um caos.

Faz-se necessário a racionalização do trânsito, priorizando os pedestres, o transporte coletivo e os serviços públicos; estabelecer uma relação coerente destes com os automóveis, motos e caminhões; criar, para os ciclistas, faixas preferenciais e regrar os seus deslocamentos; construir obras de engenharia que ofereçam a infraestrutura adequada às cidades e estradas, de modo a comportar o fluxo.

Enquanto isto acontece, e antes de tudo, é inadiável uma vigorosa campanha de educação para o trânsito. A RBS, o sindicato médico, legisladores e algumas outras entidades vêm fazendo um trabalho elogiável. Mas é pouco. Está difícil introjetar nas pessoas a responsabilidade por bem conduzir o seu veículo, respeitar a sua vida e a dos outros.

Só lá, no pronto-socorro, pode-se mensurar a verdadeira dimensão da tragédia do trânsito. E ouvir, de um colega médico que compartilhava o atendimento de um motoqueiro acidentado, uma chocante verdade: "Olha, Beto, isto é que nem dor de parto, logo eles esquecem, voltam às ruas para continuar cometendo desatinos e, em seguida, estarão aqui, de novo, gemendo sobre uma maca dos socorristas".

*Médico traumatologista

 
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