Será o primeiro encontro organizado pela entidade para discutir o atendimento às vítimas de lesão.
Atualmente, 5,8 milhões de pessoas morrem por trauma, sendo que 2 milhões de óbitos poderiam ser evitados se houvesse melhor preparo para o atendimento imediato dos pacientes - o que implica em uma série de investimentos ainda subestimados na maioria dos países.
A OMS pretende acabar com a visão do trauma como um aglomerado de acidentes. O fórum servirá para traçar um conjunto de metas, que serão recomendadas a todos os países-membros da ONU. A plenária vai definir políticas de prevenção e como melhorar o atendimento às vítimas, especialmente logo após a lesão. Segundo entidades internacionais, o trauma, hoje, é a nona maior causa de morte no mundo. Se não for enxergado com a mesma seriedade dedicada a outros problemas de saúde, chegará, em 2020, à terceira posição do ranking — atrás apenas das doenças cardiovasculares e mentais.
— Se usarmos um método organizado, conseguiremos que a maioria dos pacientes sobreviva à chamada hora de ouro, aquela imediatamente após a lesão — explica o coordenador do Fórum Global, Marcos Musafir. — O problema é que cada vítima é atendida de uma forma diferente, ignorando um método que deveria ter sido adotado em mais de 100 países.
O procedimento a que Musafir se refere é conhecido como ABDCE. As etapas devem ser realizadas sempre na mesma ordem, e uma não pode começar sem o término da anterior.
A equipe deve começar checando a respiração do paciente. Depois, combate eventuais hemorragias, confere se a vítima apresenta distúrbios neurológicos, e, por último, providencia um exame detalhado para encontrar outras lesões no corpo.
As recomendações ainda não bateram à porta de boa parte das unidades públicas de saúde dos países em desenvolvimento — entre eles, o Brasil. Esse grupo de nações responde por 90% das mortes por trauma. À carência de treinamento, somam-se os baixos salários dos profissionais e a falta de equipamentos hospitalares adequados.
Como a lista de demandas envolve investimentos significativos, a OMS defende que os ministérios da Saúde de seus países-membros reservem uma fatia do orçamento especialmente para o combate aos traumas.
— Existe uma negligência histórica em relação aos traumas — lamenta Etienne Krug, diretor do Departamento da Prevenção dos Traumatismos da Violência da OMS.
— Nas últimas décadas, muitas autoridades já reconheceram que esses episódios saíram do reino das possibilidades e devem ser vistos como casos científicos.
Nos países em que o trauma deixou de ser considerado fruto do acaso, o índice de mortes e de vítimas de sequelas diminuiu.
O país falha no atendimento pós-lesão — Musafir reconhece deficiências não só nas emergências hospitalares, como nos serviços de reabilitação —, mas virou exemplo por uma política preventiva. A Lei Seca, segundo Krug, equiparou o país aos “maiores exemplos de segurança no trânsito, como a Suécia”.
A tolerância zero com motoristas alcoolizadas ganha respaldo nas estatísticas da OMS.
Das mortes contabilizadas como trauma, 25% são relacionadas a acidentes de trânsito. O niteroiense Bruno Dutra quase perdeu a vida assim.
Dez anos atrás, quando ainda cursava o ensino médio, o estudante bebeu durante toda a madrugada de domingo e, segunda-feira, foi direto do bar para a escola. O trajeto não foi concluído: sua moto colidiu com a traseira de um caminhão, e Bruno ficou internado quatro meses. Ficou paraplégico.
— Até hoje não sei se outro veículo entrou na frente da minha moto, se eu dormi na direção, se foi o sol que bateu no meu rosto — conta. — Fiz uma cirurgia de emergência para descomprimir a medula e fraturei três vértebras.
Bruno passou oito anos praticamente trancado em casa, até descobrir a Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos. Hoje, com 28 anos, ele pratica basquete e participa das blitz da Lei Seca promovidas pelo governo estadual.
Além de abordar motoristas, vai em bares e boates para conversar com os clientes sobre os perigos de dirigir após beber. — O jovem nunca acredita que algo de ruim possa acontecer com ele. Foi assim comigo — lamenta. — Tento dar para os outros o juízo que me faltou. Evitamos mais de 2.500 mortes nos últimos seis meses. Nosso esforço vale a pena.

| < Anterior | Próximo > |
|---|


