A sigla “bols” quer dizer Blitz Operação Lei Seca e tornou Trevisan uma referência para mais de 14 mil pessoas que recebem via Twitter as mensagens com a localização das blitzes organizadas para flagrar motoristas alcoolizados. O publicitário é um dos cinco responsáveis pela página do Twitter batizada de “Lei Seca RJ”. A equipe reúne ainda dois economistas, um engenheiro e outro publicitário, todos com menos de 30 anos.
Inseguros com a notoriedade alcançada pela página do Twitter, criada há três meses, os quatro jovens têm receio de aparecer. Na função de porta-voz do grupo, Trevisan fala sobre o funcionamento da rede de informações criada para rastrear as blitzes. Quase sempre, a dica é repassada por motoristas que estão nas ruas.
Usando um telefone com acesso rápido à internet, como iPhone ou BlackBerry, eles enviam um post para o Twitter da Lei Seca. Para que a mensagem seja publicada no site, é preciso que pelo menos um dos cinco mediadores autorize. Para quem ainda não sabe, o Twitter é um sistema de blog em que as mensagens publicadas têm no máximo 140 caracteres e o usuários seguem uns aos outros, numa espécie de rede de relacionamento virtual.— Entramos em contato com outras pessoas para checar se de fato existe alguma blitz no local e se ela é da operação Lei Seca. Se confirmamos, aí sim publicamos no site — explica Trevisan.
Além das mensagens publicadas pelos próprios organizadores do “Lei Seca RJ”, alguns seguidores que conquistaram a confiança deles por causa de informações precisas repassadas anteriormente também têm suas mensagens postadas. Trevisan entrou para o grupo assim. Quando o site estava há um mês no ar, ele se tornou colaborador assíduo e acabou convidado para se juntar à equipe. Formado em administração e marketing, ele fez carreira dentro de empresas privadas em funções ligadas às novas redes de informações criadas na internet. Graças a essa experiência, associou ao Twitter um sistema de mapas para facilitar a localização das blitzes.— Até o início do ano que vem, estaremos com mais de 90 mil seguidores — ele aposta.
Nos últimos dias, Trevisan tem prestado consultoria para administradores de páginas do Twitter criadas para rastrear “bols” em outras partes do Brasil, como São Paulo, o Distrito Federal e Salvador. O deputado federal Hugo Leal (PSC-RJ), relator da Lei Seca, lamenta que este tipo de iniciativa esteja se alastrando pelo país.— É uma informação que não contribui para a redução de acidentes.
As blitzes têm um papel educativo — defende o deputado. O papel das blitzes é justamente o alvo das críticas dos organizadores da página no Twitter: — Não somos contra a Lei Seca, mas contra os transtornos gerados pelas operações de fiscalização — frisa Trevisan. — Eles provocam enormes engarrafamentos para flagrar um percentual mínimo de motoristas alcoolizados.
Segundo a Secretaria de Governo do Estado, em média, de cada cem motoristas parados em blitzes da Lei Seca, dois são flagrados com taxas acima de 0,1mg/l (miligrama de álcool por litro de ar expelido), o equivalente a uma lata de cerveja, quantidade suficiente para que o motorista seja multado em R$ 955 e proibido de dirigir por um ano (acima de 0,3mg/l, ele também é processado). No mês de setembro, houve uma redução de 27% no número de vítimas de acidentes de trânsito comparado ao mesmo período no ano passado.— Transmitir informação sobre a localização de uma operação policial em uma via pública não é crime. Podemos considerar uma conduta apenas reprovável do ponto de vista ético, mas não ilícita do ponto de vista criminal — avalia o advogado Luciano Rinaldi, do Escritório Rinaldi de Carvalho.— Não há neste caso estímulo a se burlar alguma lei. As informações podem até ser consideradas de interesse público, como, por exemplo, uma forma de se evitar engarrafamentos — pondera o advogado Filipe Fonteles, do Escritório Dannemann Siemsen.
Em nota, a Secretaria de Governo informou que não faria qualquer consideração sobre o Twitter da Lei Seca: “A troca de informações, seja por telefone, mensagens eletrônicas ou redes sociais da internet, é um direito de qualquer cidadão.”
Trevisan ressalta que o objetivo do site não é provocar polêmica, apenas prestar um serviço. Os idealizadores da página, no entanto, logo na abertura fazem uma provocação (imagem acima), transformando em piada o logotipo “Operação Lei Seca, eu apóio”.
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