Pedestre tem 15 segundos para cruzar via

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

 

A reportagem cronometrou o tempo dos semáforos de pedestres em 15 esquinas da cidade. Encontrou uma, formada pelas avenidas Ibirapuera e Bem-Te-Vi (zona sul), em que a travessia deve ser feita em nove segundos.

O casal de idosos Antonio e Nair ainda estava no meio da rua aos seis segundos, quando o vermelho piscou. Correram. "Disse a ela: Vamos, que não dá tempo!" Na av. Doutor Arnaldo com Major Natanael, em frente a três hospitais, nem semáforo para pedestres há.

A Folha flagrou o momento em que um rapaz quase foi atropelado. Indignado, vai até o motorista e grita: "Quase me atropelou!" Já na Consolação com Dona Antônia de Queirós (região central) são duas pistas e quatro conjuntos de semáforos para pedestres.

Dois deles, um em frente à Escola Estadual Professora Marina Cintra e outro próximo ao cursinho Anglo, ficam abertos por 15 segundos, tempo que deveria ser suficiente para que crianças do Marina, alunos do Anglo e do Mackenzie e usuários do corredor de ônibus atravessassem quatro das oito pistas. A faixa também é recuada.

As motos e alguns carros que vêm da Dona Antônia e viram na Consolação costumam ignorar a travessia. Quando os motoristas percebem o que ocorre, já se passou um terço do tempo. O sinal só reabrirá dois minutos e meio depois (se alguém se lembrar de apertar o botão).

APELO DE PAI

A vice-diretora do Marina Cintra, Carmen Lúcia Henrique Nobre, conta que um pai de aluno vai ao cruzamento todos os dias, das 6h às 7h, com uma faixa com a frase "travessia de pedestres".

"Foi pedido à CET que o tempo fosse aumentado. Eles disseram que isso geraria lentidão [na Consolação] desde a Rebouças até a Radial Leste", conta Nobre.

Um agente da CET, que não se identificou, falou que, ali, o tempo deveria ser de 30 segundos. "O motorista esquece que também é pedestre. No carro, transforma-se naquele personagem do Pateta [o motorista que virava um monstro ao entrar no carro]", filosofa o marronzinho.

Surpreende que cerca de 30% dos atropelados sejam idosos?

EDUARDO BIAVATI*

Quando o sinal abre, a imagem é de um boneco com as pernas abertas, o braço adiante, como se caminhasse, passo a passo, para chegar ao outro lado da rua. Para que ninguém tenha dúvida, lê-se o comando "walk" (caminhe) nos focos para pedestre norteamericanos -certamente porque é mais seguro andar do que correr.

Mas ninguém repara no bonequinho verde. Os olhares estão aguardando outro sinal: o vermelho dos carros. Dá tempo de atravessar? Será que vai abrir? E se o motorista avançar?

Não dá para confiar em bonequinho verde. Devidamente educados, os pedestres reproduzem um comportamento submisso.

Observe seu olhar de pedinte, já com os pés na faixa, tateando sua sobrevivência. Dá para aguardar um momentinho enquanto atravesso? A vida de pedestre em São Paulo é esse humilhante cotidiano de se curvar sempre à fluidez dos veículos. Um estorvo nos cálculos da engenharia de tráfego. Melhor seria que não existisse, mas já que está em toda parte, calcula-se que ele caminhe a 1,2 m/s e não comprometa o sistema viário.

Essa velocidade não é para qualquer um: mais de 600 acabam mortos no meio da travessia todos os anos em São Paulo. Surpreende que aproximadamente 30% dessas vítimas tenham mais de 60 anos de idade?

Como é possível atravessar a 1,2 m/s se antes a pessoa gastou o fôlego subindo ladeiras e desviando de montes de lixo? Resta ao lado, ainda bem, o asfalto da pista, onde morrerá quase metade das vítimas do trânsito.

Pobres pedestres! Contamos, ao menos, com a esperança de que tudo pode mudar quando a segurança se torna prioridade, como ocorreu em Brasília, há dez anos.

*Sociólogo e especialista em educação para o trânsito.

<!-- @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } A:link { color: #0000ff } -->

Veja o artigo na íntegra clicando AQUI

 

 

 
Free Joomla Templates by JoomlaShine.com