Estado registrou crescimento de mortes no trânsito e queda nas multas

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A escalada no número de acidentes fatais com vítimas preocupa estudiosos, principalmente diante da tendência que começava a se desenhar com a implantação da Lei Seca, na metade de 2008. Comparado ao primeiro trimestre daquele ano, o saldo de mortes no trânsito chegou a cair 14,4% no mesmo período de 2009.

Estudiosos buscam explicações para a reviravolta indicada pelo levantamento do Detran. Para especialistas como João Fortini Albano, professor do Laboratório de Sistemas de Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Mauri Panitz, consultor em engenharia de trânsito, a resposta não vem sozinha. Inclui desde falhas na fiscalização até o aumento da frota de veículos e a imperícia de novos motoristas.

Com o aumento do poder de consumo e facilidades cada vez maiores de financiamento, o mercado de veículos viencia um boom de março de 2009 para cá. Ruas e rodovias, porém, pouco mudaram. O fenômeno, cujo retrato mais visível são os congestionamentos, comuns em cidades como Porto Alegre, pode ter ligação, segundo pesquisadores, com o descontrole ao volante. Mas não é só isso.

– É preciso intensificar o controle, porque aquela turma que tinha parado de beber por causa da Lei Seca sentiu que podia retomar o hábito. Isso é um retrocesso – avalia Panitz.

Reforço na fiscalização

A conclusão é reforçada pelas estatísticas do site do Detran. O total de multas aplicadas nas vias municipais, estaduais e federais gaúchas havia aumentado 13% nos primeiros 90 dias de 2009, em relação a igual período de 2008. Neste trimestre, caiu 4% e por pouco não voltou ao patamar anterior à Lei Seca. Somente as autuações registradas pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) despencaram 25,2%.

Por trás disso resistem entraves burocráticos. Em dezembro, 77 lombadas eletrônicas ficaram inoperantes para a troca dos aparelhos, cuja substituição terminou apenas em fevereiro. Em março, os 70 pardais instalados nas rodovias estaduais enfrentaram problema semelhante devido ao fim do contrato de locação. Os equipamentos só deverão começar a ser substituídos hoje pela Kopp, empresa responsável pelo serviço, que ontem carregava seus caminhões com o material.

– O processo se alongou mais do que esperávamos, devido a demandas judiciais – explica Márcio Tassinari Stumpf, da Superintendência de Monitoramento de Trânsito do Daer.

Descrédito da Lei Seca

A Lei Seca já não tem mais tanta força quanto em 2008, quando entrou em vigor. Pesquisas recentesmostram que, em função da falta de uma fiscalização contínua e permanente, muitos condutores que haviam parado de beber voltaram ao velho hábito. Vale destacar que, entre o primeiro trimestre de 2008, antes da entrada em vigor da legislação, e o mesmo período de 2009, depois que a norma passou a valer, houve uma queda de 14,4% no índice de acidentes com morte.

Fiscalização eletrônica falha

A inoperância dos 70 pardais espalhados pelas estradas estaduais preocupa. Sabendo que os controladores de velocidade não funcionavam, motoristas imprudentes podem ter acelerado além da conta, ampliando os riscos. Para piorar, a mesma falha envolveu as 77 lombadas eletrônicas das 23 rodovias estaduais, cuja substituição só terminou em fevereiro.

Aumento da frota

Entre março do ano passado e março deste ano, 279,2 mil novos veículos ganharam ruas e estradas gaúchas – onde já havia 4,2 milhões deles em circulação. O inchaço pode ter agravado o problema. Cada vez mais motoristas tiram carteira de habilitação, comprando carros e motos e saindo às ruas, mas a infraestrutura de tráfego pouco mudou nos últimos anos. Em alguns casos, até piorou.

Imperícia e inexperiência

A entrada em ação de um número cada vez maior de novos condutores, principalmente em função do maior poder aquisitivo da população e das facilidades para a compra de veículos, é outro fator. Muitos jovens saem das autoescolas despreparados. A imperícia ao volante, associada à inexperiência, seria a causa de muitos dos acidentes. O mesmo pode ser dito dos “motoristas de fim de semana”, que enfrentam dificuldades quando assumem o volante.

Mau estado de conservação

Estradas esburacadas, mal projetadas, com sinalização falha, incapazes de suportar o fluxo de veículos, também têm sua responsabilidade. A histórica falta de investimento e a deterioração de rodovias com o passar dos anos contribuem indiretamente para o aumento de acidentes. A melhoria na infraestrutura é tão importante como campanhas de conscientização.

"Não adianta nada fazer ações esporádicas", diz idealizador da Operação Lei Seca no Rio

Desde 29 de março do ano passado, quando entrou em vigor no Rio de Janeiro, a Operação Lei Seca virou um case de sucesso Brasil afora. Diferentemente de outros Estados, a cidade mantém fiscalização permanente, e poucos se arriscam a beber e dirigir. Um dos idealizadores do projeto, ex-subsecretário de Estado do Rio, Carlos Alberto Lopes, 64 anos, conversou ontem por telefone com ZH. Ele contou como funciona o esquema montado no principal cartão-postal do país. Confira a seguir trechos da entrevista.

Zero Hora – No Rio Grande do Sul, apesar da Lei Seca, os acidentes com morte aumentaram. Qual é o segredo do sucesso no Rio?

Carlos Alberto Lopes – Não foi só no Rio Grande que não deu certo. Em todos os Estados, depois que a lei entrou em vigor, os índices caíram, mas não se mantiveram. No Rio, fizemos diferente. Criamos uma política pública permanente, chamada Operação Lei Seca, depois de quatro meses de estudo.

ZH – Como funciona?

Lopes – Tem dois focos, a fiscalização e a conscientização, que é feita por 30 cadeirantes. Eles foram vítimas de acidentes e agora visitam bares e boates para contar sua história. Fora isso, temos sete equipes com 140 pessoas e 35 etilômetros. Entre elas temos policiais militares que tiveram suas fichas examinadas uma a uma. Aqui não tem carteiraço nem suborno. Ao todo, a operação custa R$ 4 milhões, bancados pelo Detran-RJ. Fazemos operação todo dia.

ZH – Que resultados vocês conseguiram?

Lopes – Em 13 meses, evitamos que 5.037 pessoas deixassem de ser vitimadas no trânsito. Abordamos mais de 220 mil pessoas, multamos mais de 40 mil, apreendemos mais de 20 mil habilitações e fizemos 200 mil testes de bafômetro. Conseguimos que as pessoas mudassem de comportamento. Um exemplo disso são os 38 mil taxistas do Rio, que aumentaram o faturamento em 30%. As pessoas preferem ir para casa de táxi a se arriscar.

ZH – Que conselho o senhor dá aos gaúchos para que consigam reverter o problema no trânsito?

Lopes – A primeira coisa é vontade política e coragem para enfrentar a barra. É água mole em pedra dura. E não adianta nada fazer ações esporádicas, porque não funcionam. Aqui, todo dia tem operações, sempre em locais diferentes, e voltadas especificamente para esse fim.

 

 
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